Wednesday, November 01, 2006

Réplica do Ponto de Fuga

Diego,

obrigado pelos parabéns. Em todo caso, a congratulação não deve ser dedicada mim, mas sim a você e a todos os demais amigos que aqui se manifestaram ou que, ainda que não o tenham feito, acompanham a discussão. Fico feliz que estejamos usando a internet – um instrumento fantástico – também para refletir, questionar a nós e aos outros, compartilhar experiências e visões de mundo. E não vai aqui nenhuma dose de hipocrisia ou demagogia: é realmente o que penso.

Tanto assim o é que suas palavras me fizeram pensar. Será que escrevi bobagem? Será que realmente valeu a pena votar no Lula para evitar o outro caminho? Terá sido essa a melhor posição no momento?

Me lembro de nossa conversa no “boteco de quinta categoria”, depois de uma surra futebolística fenomenal. Entre um gole e outro, filosofamos sobre o Brasil – e lamentamos haver tanto perna de pau em nosso time.

Sim, me lembro que comentou a respeito da Carta ao Povo Brasileiro, que de fato indicava o caminho que o governo do PT seguiria. Me recordo que nunca nutriu esperanças com Lula.

Mas você também deve lembrar que argumentei que não esperava mil maravilhas de Luís Inácio. Já naquele momento estava claro que, para chegar ao poder, a cúpula que dominava o partido estava disposta a concessões e mais concessões; era visível que a busca enlouquecida pelo poder havia arrefecido o sentido de transformação social que em outros tempos Lula representava. Também deve se lembrar que argumentei que a cúpula do partido – a mesma que assumiu o comando do governo – não representava a maioria dos petistas.

Mesmo com todas essas ressalvas, ainda assim, dizia eu, historicamente seria importante para o Brasil a vitória de um partido que – bem ou mal – nasceu da esquerda e poderia, assim, arejar o debate político, contribuir para frear o conservadorismo político que sempre grassou no País. Mesmo que moderado – ou reformista, como queira –, a chegada do PT ao poder poderia de alguma forma significar alguns passos para modernizar o País. Se não pelos seus méritos, pelo menos pelo fato de frear o ideário conservador e permitir o avanço de grupos mais progressistas. Uma visão, portanto, sem grandes ilusões.

É claro que, na época, era inevitável que a emoção com a vitória de um ex-líder sindical do PT aflorasse. Talvez isso possa ter passado a impressão de um entusiasmo além da conta.
Para mim, no entanto, estava claro que Lula não romperia com o modelo pré-estabelecido. No máximo iria gerenciá-lo, com a diferença que daria a ele contornos um pouco mais progressistas. Vai perguntar se achava isso bom? Não, não achava – ele não foi eleito para gerenciar uma máquina falida, mas sim para transformar o País. Mas era isso imaginava que fosse acontecer.

O que eu acreditava, sim, é que haveria um avanço considerável na educação e na área social – por favor, não estou falando de Bolsa Família, mas sim de ações que de fato contribuíssem para a construção da cidadania e da distribuição de renda. Esperava avanços no diálogo com os movimentos sociais – e que isso se concretizasse em ações efetivas –, nas políticas de afirmação social, na defesa dos direitos civis. E que no plano externo o Brasil finalmente assumisse um papel assertivo.

Quatro anos depois, muitas dessas esperanças ruíram – e aqui faço coro às suas críticas. O Brasil não rumou para uma concepção de educação transformadora, os movimentos sociais ocuparam papel secundário, as vozes mais progressistas ficaram a falar com as paredes. Isso sem falar nos atos de corrupção e na manutenção de uma relação promíscua com o Congresso.

Em todo caso, me parece inegável a importância da colocação de alguns temas na agenda política: estão aí as ações de afirmação social, a discussão sobre o software livre, a política externa assertiva.

Mas o que se coloca agora, em 2006 – pelo menos para mim – não é a defesa desse governo. Em vez disso, a argumentação é que, mesmo com a decepção provocada pelo governo Lula, ainda assim era melhor ter Lula lá que abrir espaço para uma vertente explicitamente conservadora e fiel a um receituário neoliberal até às vísceras, com histórico de truculência no contato com movimentos sociais e moldada por um fundamentalismo religioso e moral.

A vitória do PSDB significaria o triunfo de um ideário que prega o Estado mínimo, a intolerância com os direitos humanos, uma política externa que desarticularia os esforços de integração dos países ditos “emergentes”. Sobre essa questão, aliás, é importante citar que a reeleição do Lula, no tabuleiro do xadrez político internacional, representa delimitar a influência geopolítica dos EUA na América Latina – alguém aí fala de Alca hoje? Para que outras frentes de esquerda ganhassem força na AL, era importante a vitória de Lula.
Para terminar, volto ao Chico Oliveira: “votei Luiz Inácio porque a urna eletrônica tinha apenas o seu nome e o do seu adversário, o já manjadíssimo e em derretimento 'picolé de chuchu'".

Você criticou Chico Oliveira por uma suposta mudança de posição da parte dele. Sugiro uma leitura mais atenta do artigo que postei aqui no blog. Em nenhum momento ele rechaça as críticas que ele próprio fez ao Lula, algo na linha “esqueçam o que escrevi”. Pelo contrário: reafirma a posição crítica, e diz que, mesmo com todas as ressalvas, votou no Lula por falta de opção, para conter um outro grupo que representaria uma ameaça ainda maior. “Votei no nome do presidente, que, espero, se traduza em transformação. Com um pé atrás. Este artigo é também a continuação da crítica que fiz ao primeiro mandato e que continuarei no segundo”, diz Chico Oliveira.

É exatamente a minha posição.
Clayton

9 comments:

Anonymous said...

A festa do PSDB seria no Clube Pinheiros e o Geraldo iria cumprimentar seus eleitores na Praça Buenos Aires no domingo , cedinho, porque opus-dei que é opus-dei não passa das 7 da matina. E o Brasil teria um choque de gestão. Vamos cobrar o Lula !

hpg said...

subscrevo.

diego said...

Clayton,

Pra continuar com alguns dos jargões com os quais nos acostumamos na esquerda é bom deixar claro pra quem acompanha esta polêmica que nossas diferenças são “táticas” e não “estratégicas”.
Como não acho legal monopolizar seu blog com minhas opiniões sobre este tema, vou dar uma pausa nos posts e aproveitar o fim de semana pra escrever tudo no meu blog – óbvio que isso não deve ser confundido com refugo; você deve ter notado que eu adoro uma polêmica... rsrs.
De antemão te aviso que a emenda ficou pior que o soneto. Tua répicla é baseado no artigo do Emir Sader, e o artigo dele é muitas vezes pior do que o do Chico de Oliveira (que sim, mudou de posição e não tem coerência pra formular políticas de acordo com suas próprias análises e caracterizações).
Como forma de organizar minhas idéias, me proponho a escrever, inicialmente, sobre um dos aspectos citados por você na sua répicla:

a) “a política externa assertiva” do governo Lula

Se tudo der certo, até segunda-feira...

p.s.: Acompanhando o noticiário pós-eleições, especula-se como provável ministeriável o companheiro Jorge Gerdau Johanpeter... isso é que é “governo em disputa”.

Clayton said...

Diego, realmente, sua alcunha deveria ser Mr Polêmica.

Não, não é que me baseei no texto do Emir. É que os argumentos de quem, como eu, votou no Lula por falta de opção de fato são parecidos. Mas, de resto, dizer que me baseei no Emir é um elogio. Pelo menos a fonte é boa.(rs)

Quando ao Gerdau, não venha com essa para o meu lado. Meus argumentos não foram em defesa de Lula. Antes disso, foram contra o outro lado.

hpg said...

metendo o bedelho: a posição tática do momento era votar no Lula. anular o voto me parece um desvio estratégico sim senhor!

diego said...

Hpg, meu caro, se é prá meter o bedelho, que seja de forma clara e direta. Se vc diz que meu desvio foi estratégico, devia dizer também qual é essa estratégia que supostamente eu defendo... Caso contrário, fica parecendo mais uma adjetivação fraquinha e sem conteúdo.

hpg said...

sr. substantivo, não me leve tão a sério.

sr. substantivo said...

sinceramente, não levei.

hpg said...

ufa!