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Thursday, February 15, 2007

Maluz faz releitura do "devo, não nego, pago quando puder"

O Brasil conheceu ontem uma nova versão para o lema dos endividados: "devo, não nego, pago quando puder. E, vejam só, veio de Paulo Salim Maluf, em pomposo discurso ontem na Câmara dos Deputados. Disse o nobilitado político, um dia chamado de "mitômano" por Marta Suplicy:

"Quando paga a dívida, o processo penal é arquivado. Vamos propor um projeto de lei com PENAS SEVERAS PARA INFRATORES (grifo do Ponto de Fuga), como nos Estados Unidos, acompanhado de um Refis definitivo".

Depois de um intróito retumbante, o desfecho apoteótico, bem apropriado ao período da folia carnavalesca:

"Quem deve, reconhece e paga, em prestações compatíveis com o tamanho de sua empresa. E está com a ficha limpa."

E estamos conversados.

Tuesday, January 09, 2007

Artigo sobre fim de contribuição ao Sesc

Foi publicado hoje na Folha de S.Paulo (Tendências e Debates) - e reproduzido logo abaixo - um artigo de Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc-SP, sobre o impacto da lei do Super Simples para entidades como o Sesc.

Recomendo a leitura, dada a importância do tema em discussão. Não se pode aceitar a redução de recursos disponíveis a entidades que efetivamente desempenham um papel cultural relevante, como o Sesc. O tema já havia sido abordado neste blog no dia 16 de novembro

São Paulo, terça-feira, 09 de janeiro de 2007

Parece super simples, mas não é

DANILO SANTOS DE MIRANDA

O Supersimples entrará em vigor em seis meses. É prazo suficiente para os autores repararem os danos que causa o atual texto da lei

A APROVAÇÃO quase unânime do Supersimples é sintomática do nível insuportável a que chegaram a nossa kafkiana burocracia tributária e a barafunda cruzada dos impostos municipais, estaduais e federais, cujos efeitos mais danosos vinham recaindo justamente sobre as micro e pequenas empresas, as mais vulneráveis.

A simplificação, a desburocratização e a unificação dos impostos, a par de uma redução da tributação -que seriam a tradução econômica da modernidade-, não poderiam ter chegado em melhor hora. Para todos, ou, ao menos, para quase todos. Sim, pois, na verdade, o Supersimples não é tão simples quanto parece, nem o sentido de modernidade que lhe é atribuído é tão exemplar assim.

Ninguém diz, mas há muitos perdedores com a nova lei, sobre os quais pouco se tem falado e que não se transformaram em perdedores porque eram adversários; pelo contrário, alguns foram aliados de primeira hora de tudo o quanto neste país se pensou e se aspirou acerca de desenvolvimento e modernidade. Referimo-nos ao Sesc (Serviço Social do Comércio) e ao Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial), duramente atingidos ao se isentar as micro e pequenas empresas da contribuição que faziam para sua manutenção. Embora outros dos chamados "S" também sofram prejuízos, o impacto é maior para as entidades do comércio e serviços, setor em que predominam as empresas de pequeno porte.

Não vamos entrar na análise da burla constitucional dessa isenção -os recursos das entidades são garantidos pelo artigo 240 da Constituição, portanto invioláveis-, num magistral gesto de cortesia feito com o chapéu alheio pelo Executivo, com o aval do Legislativo, além de contundente manifestação de desapreço para com os "S", os quais certamente não têm para eles nenhuma relevância, mesmo que lhes dediquem homenagens protocolares de aniversário. É o que explicaria também o fato de nem mesmo levarem em consideração a vitória clara dessas entidades na Justiça em demanda contra outra descabida isenção feita pela receita federal no antigo Simples, que nem sequer a previa. Mais que vencer no campo legal, contudo, importa a essas entidades vencer no plano dos valores, pois seus compromissos com a sociedade brasileira vão muito além da letra da lei.

A modernidade é um desses valores -por ironia, a mesma modernidade que parece ter inspirado o Supersimples, de tão nefasto efeito sobre elas. Não precisamos nos estender aqui sobre o relevante papel desempenhado pelo Sesc no desenvolvimento da cultura e da educação em nosso país -que não passa despercebido pelo cidadão medianamente informado e, menos ainda, pelos milhares de pessoas que diariamente se beneficiam de suas realizações.

Cabe assinalar apenas que é a crença no papel transformador da cultura -papel provocativo e emulador, eu diria- que confere a essa instituição lugar de destaque entre aquelas que apontam para a modernidade. Modernidade que transparece em todos os seus programas, os quais têm merecido, de renomadas organizações internacionais, o reconhecimento que aqui tem sido cada vez mais raro. O mesmo se pode dizer do Senac, formando e qualificando trabalhadores para o setor terciário, inclusive para as micro e pequenas empresas.

Quem perde mais com o Supersimples, entretanto, são os próprios trabalhadores dessas empresas, nas quais, aliás, se encontram os menores salários. Eles passam a constituir uma nova categoria de excluídos: aqueles que perderam seu direito ao Sesc e Senac porque suas empresas foram "beneficiadas" pelo Supersimples com a isenção. As empresas, em contrapartida, abdicam de sua responsabilidade social, vital para a redução das desigualdades sociais e para o desenvolvimento do país.

Era contribuindo com 1,5% (calculados sobre a folha de pagamento) para o Sesc e 1% para o Senac que elas assumiam sua parcela de responsabilidade para com a sociedade brasileira, inspiradas pelo ideário das lideranças empresariais que fundaram os "S", ideário que infelizmente parece esfumar-se nas mãos de algumas lideranças de hoje. De qualquer modo, Inês dorme, mas ainda não é morta. O Supersimples só entrará em vigor dentro de seis meses. É prazo suficiente para que seus autores reflitam e possam, talvez movidos agora por um genuíno espírito de modernidade, encontrar uma forma de reparar os danos provocados pelo atual texto da lei. Não se faz a omelete sem quebrar os ovos, é verdade; mas que omelete há de ser essa, quando se joga a gema fora?

DANILO SANTOS DE MIRANDA, 63, sociólogo, especialista em ação cultural, é diretor do Departamento Regional do Sesc (Serviço Social do Comércio) no Estado de São Paulo. É conselheiro do MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo), da Fundação Itaú Cultural e do Masp (Museu de Arte de São Paulo) e vice-presidente continental da Federação Internacional de Esportes para Todos.

Monday, December 11, 2006

Já foi tarde

Augusto Pinochet
1915 - 2006

Thursday, November 16, 2006

Sesc ameaçado

O tema cultura ficou relegado às sombras na última eleição – como de resto acontece não é de hoje neste País. Pois eis que o assunto ganha os holofotes de um modo indireto, e como decorrência daquilo que realmente atrai as atenções da mídia, do poder e do mercado: o aspecto econômico. Pior: vem com uma ameaça ao bom trabalho cultural desenvolvido, por exemplo, pelo Sesc.

Resumindo, a história é a seguinte: o Senado aprovou no dia 8 deste mês a Lei Geral das Micro e Pequenas Empresas, que institui o Supersimples. Entre outros pontos, a lei dispensa as empresas com renda bruta anual de até R$ 2,4 milhões de contribuir com o chamado Sistema S (Sesc, Sesi, Senac, Senai). Um acordo entre o governo federal e os estados adiou o início da vigência da lei de janeiro para julho de 2007, mas ela ainda precisa passar pela Câmera dos Deputados.

Preocupado com a perda financeira provocada pela nova lei, o que vai comprometer uma série de atividades, o Sesc ameaça recorrer à Justiça, conforme notícias veiculadas pela imprensa.

“Ao permitir que as micro e pequenas empresas fiquem isentas da contribuição, é como se quisessem dizer que essas entidades não têm importância ou que poderiam ser substituídas, o que é uma falácia", declarou Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc-SP, ao Diário do Grande ABC, no dia 4 de novembro. Segundo o jornal, o Sesc perderia cerca de um terço de sua receita, ou seja, R$ 10 milhões mensais a menos. A entidade atende 1 milhão de pessoas por mês, com atividades de cultura, lazer, esporte e educação, entre outras coisas.

O objetivo da nova lei é desafogar as micro e pequenas empresas, que se vêem emparedadas pelo excesso de tributos. A desoneração dos empreendimentos de pequeno porte é mais do que justa: é necessária. Mas daí a prejudicar uma entidade como o Sesc, cujo trabalho reconhecidamente se pauta pela difusão cultural no mais alto grau, é uma atitude descabida. Mais uma vez, a cultura – entendida em seu sentido mais amplo – é vista como algo de segunda categoria. Dispensável.


Abaixo, selecionei algumas matérias sobre o assunto, para quem desejar obter mais informações sobre o tema.

Carta Maior

UOL

Diário do Grande ABC

Wednesday, November 01, 2006

Réplica do Ponto de Fuga

Diego,

obrigado pelos parabéns. Em todo caso, a congratulação não deve ser dedicada mim, mas sim a você e a todos os demais amigos que aqui se manifestaram ou que, ainda que não o tenham feito, acompanham a discussão. Fico feliz que estejamos usando a internet – um instrumento fantástico – também para refletir, questionar a nós e aos outros, compartilhar experiências e visões de mundo. E não vai aqui nenhuma dose de hipocrisia ou demagogia: é realmente o que penso.

Tanto assim o é que suas palavras me fizeram pensar. Será que escrevi bobagem? Será que realmente valeu a pena votar no Lula para evitar o outro caminho? Terá sido essa a melhor posição no momento?

Me lembro de nossa conversa no “boteco de quinta categoria”, depois de uma surra futebolística fenomenal. Entre um gole e outro, filosofamos sobre o Brasil – e lamentamos haver tanto perna de pau em nosso time.

Sim, me lembro que comentou a respeito da Carta ao Povo Brasileiro, que de fato indicava o caminho que o governo do PT seguiria. Me recordo que nunca nutriu esperanças com Lula.

Mas você também deve lembrar que argumentei que não esperava mil maravilhas de Luís Inácio. Já naquele momento estava claro que, para chegar ao poder, a cúpula que dominava o partido estava disposta a concessões e mais concessões; era visível que a busca enlouquecida pelo poder havia arrefecido o sentido de transformação social que em outros tempos Lula representava. Também deve se lembrar que argumentei que a cúpula do partido – a mesma que assumiu o comando do governo – não representava a maioria dos petistas.

Mesmo com todas essas ressalvas, ainda assim, dizia eu, historicamente seria importante para o Brasil a vitória de um partido que – bem ou mal – nasceu da esquerda e poderia, assim, arejar o debate político, contribuir para frear o conservadorismo político que sempre grassou no País. Mesmo que moderado – ou reformista, como queira –, a chegada do PT ao poder poderia de alguma forma significar alguns passos para modernizar o País. Se não pelos seus méritos, pelo menos pelo fato de frear o ideário conservador e permitir o avanço de grupos mais progressistas. Uma visão, portanto, sem grandes ilusões.

É claro que, na época, era inevitável que a emoção com a vitória de um ex-líder sindical do PT aflorasse. Talvez isso possa ter passado a impressão de um entusiasmo além da conta.
Para mim, no entanto, estava claro que Lula não romperia com o modelo pré-estabelecido. No máximo iria gerenciá-lo, com a diferença que daria a ele contornos um pouco mais progressistas. Vai perguntar se achava isso bom? Não, não achava – ele não foi eleito para gerenciar uma máquina falida, mas sim para transformar o País. Mas era isso imaginava que fosse acontecer.

O que eu acreditava, sim, é que haveria um avanço considerável na educação e na área social – por favor, não estou falando de Bolsa Família, mas sim de ações que de fato contribuíssem para a construção da cidadania e da distribuição de renda. Esperava avanços no diálogo com os movimentos sociais – e que isso se concretizasse em ações efetivas –, nas políticas de afirmação social, na defesa dos direitos civis. E que no plano externo o Brasil finalmente assumisse um papel assertivo.

Quatro anos depois, muitas dessas esperanças ruíram – e aqui faço coro às suas críticas. O Brasil não rumou para uma concepção de educação transformadora, os movimentos sociais ocuparam papel secundário, as vozes mais progressistas ficaram a falar com as paredes. Isso sem falar nos atos de corrupção e na manutenção de uma relação promíscua com o Congresso.

Em todo caso, me parece inegável a importância da colocação de alguns temas na agenda política: estão aí as ações de afirmação social, a discussão sobre o software livre, a política externa assertiva.

Mas o que se coloca agora, em 2006 – pelo menos para mim – não é a defesa desse governo. Em vez disso, a argumentação é que, mesmo com a decepção provocada pelo governo Lula, ainda assim era melhor ter Lula lá que abrir espaço para uma vertente explicitamente conservadora e fiel a um receituário neoliberal até às vísceras, com histórico de truculência no contato com movimentos sociais e moldada por um fundamentalismo religioso e moral.

A vitória do PSDB significaria o triunfo de um ideário que prega o Estado mínimo, a intolerância com os direitos humanos, uma política externa que desarticularia os esforços de integração dos países ditos “emergentes”. Sobre essa questão, aliás, é importante citar que a reeleição do Lula, no tabuleiro do xadrez político internacional, representa delimitar a influência geopolítica dos EUA na América Latina – alguém aí fala de Alca hoje? Para que outras frentes de esquerda ganhassem força na AL, era importante a vitória de Lula.
Para terminar, volto ao Chico Oliveira: “votei Luiz Inácio porque a urna eletrônica tinha apenas o seu nome e o do seu adversário, o já manjadíssimo e em derretimento 'picolé de chuchu'".

Você criticou Chico Oliveira por uma suposta mudança de posição da parte dele. Sugiro uma leitura mais atenta do artigo que postei aqui no blog. Em nenhum momento ele rechaça as críticas que ele próprio fez ao Lula, algo na linha “esqueçam o que escrevi”. Pelo contrário: reafirma a posição crítica, e diz que, mesmo com todas as ressalvas, votou no Lula por falta de opção, para conter um outro grupo que representaria uma ameaça ainda maior. “Votei no nome do presidente, que, espero, se traduza em transformação. Com um pé atrás. Este artigo é também a continuação da crítica que fiz ao primeiro mandato e que continuarei no segundo”, diz Chico Oliveira.

É exatamente a minha posição.
Clayton

Tuesday, October 31, 2006

Emir Sader e a reeleição de Lula



Como uma pitada polêmica faz bem para a alma e rejuvenesce o coração – basta ver o que as mensagens de ontem provocaram –, PONTO DE FUGA dá mais uma ajudinha para esquentar essa terça-feira reproduzindo um texto publicado originalmente no Blog do Emir, no domingo dia 29 de outubro, dia eleição.

Professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da UERJ, Emir Sader é um daqueles intelectuais que conjugam reflexão teórica com a participação ativa nos grandes debates a respeito do Brasil e do mundo. Extremamente crítico em relação aos rumos seguidos pelo governo Lula, Emir – intelectual de esquerda – não mudou de lado nesta eleição. No texto reproduzido logo abaixo ele explica os motivos.


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29/10/2006
O direito à festa e à luta
Há exatamente quatro anos atrás comemorávamos – tantos de nós na Avenida Paulista, outros tantos pelo Brasil afora e para além daqui -, finalmente a vitória de Lula, a vitória do PT, a vitória da esquerda. Nos encontrávamos com tanta gente que colocava para fora, nas lágrimas, nos gritos, tanta coisa reprimida, que vinha de longe: da lembrança dos companheiros que não puderam comemorar aquilo conosco às frustrações acumuladas de ver o país ser despedaçado pelo governo que terminava – finalmente – derrotado naquele dia.

Comemorávamos, mas com um travo amargo na garganta. Sabíamos que era o nosso governo, mas alguma coisa nos escapava ali. Ganhávamos, fechávamos o governo FHC com sua derrota – o mais importante naquele momento -, mas se desenhavam sombras sobre a vitória, que indicavam que ela nos escapava. Da “Carta aos brasileiros” ao “Lulinha, paz e amor”, de Duda Mendonça a Palocci e – confirmando tristemente as sombras, a Henrique Meirelles -, mais do que algo nos apontava que a nossa vitória não era necessariamente nossa vitória, a vitória da esquerda, a vitória do anti-neoliberalismo, a vitória do “outro mundo possível” pelo qual estivéramos lutando tanto tempo.

Havíamos lutado contra as privatizações, havíamos lutado contra as (contra) reformas neoliberais, de menos Estado, menos políticas sociais, menos regulamentação, menos direitos trabalhistas, menos empregos formais, menos soberania, menos esfera pública, menos educação pública, menos cultura pública. Havíamos luta contra a cassação de direitos dos trabalhadores, dos aposentados, dos trabalhadores sem terra, das universidades públicas, da saúde pública. Havíamos resistido e naquele dia sentíamos que, apesar de tudo o que se havia dilapidado do país, havíamos derrotado ao projeto neoliberal de FHC, havíamos triunfado.

O dia da posse e do discurso de Lula em Brasília pareciam o ponto de chegada de mais de uma década de lutas de resistência, em que o Brasil se havia tornado depositário das esperanças da esquerda de todo o mundo. O Brasil de Lula, do PT, do MST, da CUT, de Porto Alegre, do orçamento participativo, do Fórum Social Mundial.

Nossas desconfianças se confirmaram com mais rapidez do que supúnhamos. Henrique Meirelles, manutenção da taxa de juros, superávit fiscal – eram pontas de iceberg mais profundo: a manutenção do modelo econômico herdado de FHC. Primeiro, chamado de “herança maldita”. Que não foi desembrulhado como pacote, para mostrar o Brasil desfeito e refeito como Bolsa de Valores nas mãos dos tucanos-pefelistas, o Brasil da privataria na educação e na cultura, do maior escândalo da história do país com a privatização das estatais – saneadas com o dinheiro público do Bndes, para em seguida ser vendida a preços de banana de novo com recursos públicos do Bndes.

Em nome da superação dessa “herança” nos foi empurrada uma (contra) reforma da previdência, que desatou um fatal desencontro entre os movimentos sociais e o governo, porque assinalava um caminho de “reconquistar a confiança do mercado” às custas de direitos sociais dos trabalhadores. O nosso governo fazia o que chegou a ser dito que fazíamos “o que FHC não tinha tido coragem de fazer” – sem dizer que era porque não teve força, pela resistência que nós lhe opusemos.

Não demorou para que o modelo – primeiro chamado de “herança maldita” – fosse perenizado, com a manutenção das taxas de juros reais mais altas do mundo, com um superávit fiscal mais alto que o definido pelo FMI, com a ditadura dos “contingenciamento” de recursos pela equipe econômica, que passou a ter o poder de definir quantos recursos iriam (ou não iriam) para as políticas sociais, qual o aumento possível do salário mínimo e tudo o mais que deveria ter sido a referência central do governo, se fosse para cumprir a “prioridade do social” para o qual tinha sido eleito.

Logo se perpetuou o modelo, logo se afirmou que ela era o melhor, se agradeceu em abraço ao antecessor de Lula pela herança - a partir dali rebatizada de bendita - que havia deixado e se afirmou que “dez anos eu tivesse, dez anos manteria este superávit fiscal”. Acompanhava-se um discurso desmobilizador, de auto-complacência, que não apontava quais eram os adversários, os que haviam produzido o pais mais injusto do mundo, que levou Lula à presidência para redimi-lo e não para perenizá-lo.

Nunca sentimos tanta amargura. Porque uma coisa era ver o país ser despedaçado pelos que nos haviam derrotado, outra era ver uma equipe no Banco Central completamente alheia a toda a tradição dos economista do PT se dar o direito de predominar sobre o que notabilizou o PT – suas políticas sociais. Outra coisa era ver grandes empresários fazerem predominar seus interesses agro-negocios-exportadores, de disseminação dos trangênicos, sobre os sem terra, a reforma agrária, a economia familiar, a auto-suficiência alimentar no nosso governo. Outra coisa era ver as rádios comunitárias serem reprimidas em lugar de serem incentivadas, a imprensa alternativa sobreviver a duras penas, enquanto o governo continuava a alimentar os grandes monopólios anti-demcráticos da mídia privada. Outra coisa era ver os softwares alternativos serem subestimados ou descartados em favor dos grandes lobbies das corporações privadas. Pelo nosso governo.

Foi duro, foi muito duro. Talvez tivesse sido mais fácil – se tudo fosse pensado do ponto de vista da biografia individual de cada um – ter rompido, ter ido embora, ter dito tudo o que o governo merecia ouvir, com todos os tons e sons. Mas teria sido dizer que tínhamos sido irremediavelmente derrotados, que tudo o que tínhamos feito nas décadas anteriores tinha desembocado numa imensa derrota. Teria sido abandonar as trincheiras de luta que tínhamos construído com tanto esforço e sacrifício.

Dava vontade. Em certos momentos teria sido muito mais fácil deixar correr solta a palavra, aderir à teoria da “traição”, refugiar-nos nas denuncias e abandonar a possibilidade de construir uma alternativa concreta.

Como se não bastasse tudo isso, vieram os “escândalos”: Waldomiro Diniz, Roberto Jéferson, “mensalão”, “sanguessugas” – cada um como uma nova estaca no nosso coração. A imagem ética do PT, construída como a menina dos nossos olhos era revertida. Nos tornávamos o partido dos “maiores escândalos da história do país”. A palavra “petista” passava a ser revestida de uma desconfiança de “corrupção”. Nada de pior poderia acontecer a um partido que tinha nascido, crescido, se fortalecido e se tornado vitorioso com as bandeiras da “justiça social e da ética na política”. Não éramos fiéis nem a uma nem à outra.

No entanto, não nos fomos. Ficamos. Seguimos tentando encontrar os fios para retomar o caminho de que nos havíamos desviado. Sabíamos que os grandes enfrentamentos ainda estavam por ser dados. Sabíamos que nossa política externa era a correta e se havia tornado essencial para o continente – agora povoado de governos progressistas, como nunca na história da América Latina. Sabíamos que nos podíamos orgulhar da Petrobrás – que quase havia se tornado Petrobrax nas mãos criminosas dos tucanos -, da autosuficiência em petróleo, de que uma das maiores empresas do mundo havia resgatado o Brasil da crise do petróleo através de uma tecnologia de pesquisa e extração de petróleo em águas profundas, com tecnologia nacional e pública. Sabíamos que a privataria na educação, que havia feito proliferar faculdades e universidades privadas como verdadeiros shopping-centers que vendiam educação como big-macs, havia terminado. Que se fortaleciam as universidades públicas, que passávamos a ter, pela primeira vez, políticas públicas de cultura, abertas à criatividade e à diversidade popular. Que Lula não era FHC, que o PT não era o PSDB. Que os movimentos sociais não eram mais criminalizados e reprimidos. Que a relação com a Venezuela, a Bolívia, Cuba, a Argentina, o Uruguai – era de irmandade e não de preconceitos de quem olha par ao Norte e para fora. Que a Alca tinha sido brecada e derrotada pela nossa política externa. Que o Brasil tinha sido o principal responsável pela reaparição do Sul do mundo no cenário internacional com o Grupo dos 20 e as alianças com a África do Sul e a Índia. Que as políticas sociais do governo, mesmo não sendo as que historicamente haviam caracterizado ao PT, mudavam, pela primeira vez o ponteiro da desigualdade – a maior do mundo, o maior desafio da história brasileira – no sentido positivo. Que nem que fosse por solidariedade com a grande maioria dos brasileiros – pobres, miseráveis, excluídos, discriminados, humilhados e ofendidos secularmente -, tínhamos que valorizar essas políticas sociais.

Ficamos também porque sabíamos que ir-se seria recair na velha e infértil tentação do refúgio no doutrinarismo – caminho justamente que o PT se havia proposta a superar. Seria retomar o velho circulo de Sísifo, interminável de avanços, vitória, “traição” e retomada da resistência. Como uma tragédia grega que havia condenado a esquerda a ter razão, mas ser sempre derrotada. A ter vergonha e desconfiança da esquerda que triunfa. Dos desafios que a construção de uma hegemonia alternativa coloca diante de nós.

Valeu a pena termos ficado, termos continuado na luta, termos acreditado que este é o melhor espaço de luta, de acumulação de forças, de construção de alternativas para o Brasil. Não porque tenhamos triunfado nas eleições . Claro que também por isso. Porque derrotamos o grande monopólio privado da mídia, demonstrando que é possível e indispensável construir formas democráticas de expressão da opinião pública, tirando-a das mãos oligopólicas das quatro famílias que se acreditavam donas do que se pensa no Brasil. Claro que porque derrotamos o bloco tucano-pefelista – e de cambulhada mandamos para a aposentadoria política a Tasso Jereissatti, a ACM, a Jorge Bornhausen, a FHC -, derrotamos a direita.

Mas principalmente porque recuperamos a possibilidade de construir um “outro Brasil” – caminho que parecia fechado em meio a tanto superávit fiscal, a taxas de juros exorbitantes, a tantas denúncias.

Recuperamos, especialmente no segundo turno, porque chamamos a direita de direita. Dissemos um pouco das desgraças que eles fizeram para o Brasil – finalmente abrimos o dossiê da “herança maldita”. Criminalizamos as privatizações, possibilitando que aparecesse à superfície a condenação majoritária dos brasileiros a um processo embelezado e sacralizado pela mídia e pelos arautos do grande capital privado dentro dela. Porque apelamos à mobilização popular, porque fizemos uma campanha de esquerda no segundo turno. Porque comparamos o governo deles com o nosso que, mesmo com todas as suas fraquezas, mostrou-se inquestionavelmente superior ao deles. Foi isso que triunfou. Triunfamos pelo que mudamos, não pelo que mantivemos. Ganhamos porque nos mostramos diferentes e não iguais a eles.

Comemoramos agora de novo, na Avenida Paulista ou em tantos outros lugares – antes de tudo nesses milhões de casas de beneficiários da Bolsa Família, da eletrificação rural, dos micro-créditos, do aumento do salário mínimo, mas principalmente os dignifica, ao se sentirem contemplados e representados. Nessas casas onde nunca se duvidou que este governo é melhor que todos os outros. Que nos deram a lição da tenacidade e da resistência contra as campanhas terroristas da mídia.

Comemoramos com o mesmo travo amargo na garganta, mas com esperança e com mais confiança. Comemoramos o direito de ter outra oportunidade. Comemoramos a força que conseguimos construir e reconstruir. Comemoramos o direito de sair da política econômica conservadora que impediu o crescimento econômico e poderia bloquear a extensão do crescimento social – caso perdurasse a ditadura dos “contingenciamentos” de recursos. Comemoramos o direito de banir essa maldita expressão – “contingenciamento” – do vocabulário político do governo.

Comemoramos o direito a reabrirmos espaços de luta e de esperança que nossos erros haviam ameaçado de fechar. Comemoramos porque conseguimos nos salvar de uma derrota que teria condenado a esquerda – e com ela, o país – a muitos anos de novos retrocessos. Comemoramos porque bloqueamos a possibilidade de regressões na América Latina e seguimos nos somando aos processos de integração. Comemoramos porque neste momento assinamos acordo com a Bolívia, demonstrando que o caminho do diálogo e do entendimento com os paises amigos é o caminho correto.

Não foi fácil manter a dignidade e a esperança, mesmo durante a campanha. Mas resistimos, com dignidade, até que triunfamos. E reconquistamos o direito à esperança. Principalmente no segundo turno, com uma campanha de esquerda, de reivindicar o Brasil que queremos, enunciando os inimigos de um Brasil justo e solidário – as forças políticas, midiática, econômicas: as elites tradicionais.

Ganhamos o direito a lutar, a lutar por um governo que finalmente promova a prioridade do social, seja um governo posneoliberal, trabalhe pela construção de uma democracia com alma social.

Comemoremos, porque merecemos a vitória, apesar dos nossos erros. Mas para estar à altura da nossa vitória, temos que fazer dela uma vitória da esquerda. Uma vitória que esteja à altura do emocionante apoio que o governo recebeu, ao longo de toda a campanha, dos mais pobres, dos mais marginalizados, dos que constituem a grande maioria dos brasileiros, dos que trabalham mais e ganham menos. Dos que souberam, como ninguém, resistir à enxurrada de propaganda que a mídia despejou sobre todos. Fazer do novo governo, antes de tudo o governo deles. De todos os brasileiros, mas sobre tudo dos que sempre foram marginalizados, excluídos, reprimidos, que sempre viveram e morreram sobrevivendo, no anonimato, no silêncio, no abandono.

Comemoremos, mas juremos nunca mais deixar que o nosso governo se desvie do caminho do desenvolvimento econômico e social, das políticas de universalização dos direitos, de democratização da mídia, de socialização da política e do poder. Nunca mais aceitarmos que o nosso governo se confunda com o governo dos outros, faça e diga o que os outros disseram e nos legaram a “herança maldita”.

Comemoremos e retomemos a luta, em condições melhores, por um “outro Brasil possível”, que está ao alcance de nós, do governo, do PT, da esquerda, dos movimentos sociais, da intelectualidade crítica, das militância política e cultural. Dessa luta depende o segundo governo Lula, que conquistamos com muito sofrimento e tenacidade.

Soubemos dizer “Não à direita”, saibamos dizer “FHC nunca mais”, saibamos construir a “prioridade do social”, saibamos derrotar a direita em todos os planos, saibamos construir um Brasil justo, solidário, democrático e humanista. Para voltarmos a comemorar daqui a quatro anos, sem travos amargos, sem desconfiança, com o coração e a mente orgulhosos do país que soubemos construir.

* Para acessar o Blog do Emir, clique aqui

Monday, October 30, 2006

Lula reeleito: que país teremos?

Eleição terminada, Lula reeleito: que país teremos? De uma coisa, tenho certeza: o fantasma da Opus Dei foi exorcizado. O fundamentalismo religioso e moral foi aplacado. A fúria neoliberal, privatizante, recebeu uma ducha de água fria. O discurso preconceituoso foi colocado novamente nos seus devidos lugares.

Dito isso, que fique claro: os argumentos acima de modo algum representam um “salve Lula”, um canto de louvou a alguém que subjugou uma trajetória de lutas progressistas pura e simplesmente para se manter no poder; de modo algum significa passar uma borracha nos atos de corrupção que vimos ao longo de quatro anos. Na eleição que terminou ontem, estava em jogo muito mais que a disputa entre situação e oposição. Havia sim uma disputa entre a possibilidade de um diálogo e uma brecha para levar o país para uma vertente um pouco mais progressista, com conquistas no campo dos direitos humanos, das ações afirmativas, da posição do Brasil no cenário internacional – ainda que não se possa esperar muito desse governo, é bom repetir – e a truculência quatrocentona, o ranço neoliberal em sua máxima instância. Estavam em jogo duas visões de mundo distintas, ainda que aparentemente ambas pudessem ser confundidas.

Agora, cabe a cobrança por parte da sociedade.

Cobrança para que, no segundo mandato, não tenhamos de ouvir a mesma cantilena, aquela que diz que é preciso árduo sacrifício da nação para pagar o superávit primário, reduzindo os recursos vitais para o desenvolvimento do país; para não assistirmos mais uma vez a um governo que se submete ao pensamento único, sem ao menos tentar dar um passo para um novo modelo de país.

A história só será diferente se as vozes progressistas pressionarem, não derem trégua. Será possível? Pode não dar certo. Mas pelo menos temos uma chance. Com Alckmin, certamente tudo estaria perdido.


Feitas minhas humildes considerações, passo a palavra para Francisco de Oliveira, sociólogo, cujo artigo publicado hoje na Folha de S.Paulo exprime bem o que eu e muitas outras pessoas pensam a respeito desta eleição. Para destacar melhor o texto, colocarei-o no próximo post.

Monday, October 23, 2006

Fogo amigo: fala Afanásio Jazadji (PFL)

Contribuição do amigo Cláudio Camundongo, que envia um vídeo curioso que está saracoteando na internet.

Será que o Afanásio está saidinho porque ele já considera o representante do Pindamonhagaba cachorro morto na eleição? Será que o Geraldinho mexou no queijo no ex-candidato a cacique do pefelê? Ou será que o Afaná "magoou" porque a filha do Picolé de Chuchu não separou uns presentinhos da Daslu para ele? Entre cobras e largartos, o veneno respingou até na primeira dama.

Sunday, October 22, 2006

Veja o vídeo da cotovelada de Collor

O Karatê Kid de Alagoas está de volta. Depois de alguns anos em retiro espiritual, aperfeiçoando seus dotes marciais para novamente defender os descamisados contra os feios, sujos e malvados, Fernando Collor de Mello demonstrou que continua fiel aos ensinamentos do saudoso Senhor Miyagi.

Que o diga o repórter Rodrigo Asfora, da TV Jornal do Recife, retransmissora do SBT. Recentemente, enquanto cobria uma caminhada de Collor, perguntou se o ex-presidente esperava liderar as pesquisas para uma vaga ao Senado em tão pouco de campanha. Então Collor – que talvez, naquele dia, estivesse um tanto acabrunhado com os impropérios desferidos contra ele pela ex-mulher, Rosane, em templos evangélicos (sim, agora ela é uma serva do Senhor) – novamente exibiu aqueles olhões esbugalhados que o Brasil conhece e não esquece. O Lobo Mau preparava-se para o bote.

Com as bochechas ruborizadas, aquelas mesmas que foram regadas a muitos banhos de leite de aveia Davene, o velho Karatê Kid aristocrata mostrou que está em forma. Confira:


O vídeo está no YouTube e em outros sites, como o Kibe Loco. A matéria com mais detalhes da história pode ser lida no Comunique-se.

Wednesday, October 04, 2006

Crônica de um país degradado - sobre as eleições


“Simbolicamente, para meus olhos, a escola em que estudei é o reflexo de um país em processo de deterioração: país de escândalos políticos, corrupção, decadência moral, agressão aos valores humanistas. A visão da Escola degradada é o espelho de um Brasil violentado



Clayton Melo

Dia de eleição significava para mim, em outros tempos, uma ocasião para renovar esperanças. No mínimo, para dar mais alguns passos para construir um país mais justo. Não que acreditasse que com apenas um voto tudo pudesse ser resolvido ou que meu papel de cidadão se encerrasse nas urnas. Muito pelo contrário. Sempre entendi o voto como um mecanismo importante, mas somente uma das formas de o cidadão se posicionar perante os rumos da sociedade.

Hoje, eleição deixa um gosto amargo na boca – especialmente a que se realizou no dia 2 de outubro de 2006.

Afora todas as considerações de ordem política, no entanto, dia de eleição tem para mim um sentido afetivo: é o dia em que, para votar, retorno à escola em que estudei durante praticamente todos os anos de minha vida escolar e que me relembra histórias de um tempo bom.

Só que essa visita agora também me deixa um gosto azedo: ambiente sujo, descuidado, paredes descascadas, cenário decrépito. Não escapa nem quadra em que fazia gols e sonhava ser um craque. Mal se vêem os riscos que delimitam o espaço de jogo. A linha do gol é um traço imaginário.

Coincidência?

Simbolicamente, para meus olhos, a escola em que estudei é o reflexo de um país em processo de deterioração: país de escândalos políticos, corrupção, decadência moral, agressão aos valores humanistas. A visão da Escola degradada é o espelho de um Brasil violentado.

Mas meu coração vagabundo teima em ver luz no fim do túnel. Que túnel?

Obs: a escola em que estudei se chama Martins Pena, é estadual, fica na Cidade Ademar, em São Paulo, e um dia teve uma coisa maravilhosa chamada Grêmio Livre Ernesto Che Guevara. Outro dia conto esta história, que marcou a vida de um montão de gente.