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Monday, April 09, 2007

Sob o impacto de Antonioni


Rascunho emocionado depois de ver A Noite e A Aventura

Em Antonioni, o espectador se vê diante das paixões arrefecidas, do esvaziamento das relações. A modernidade líquida a moldar os sentidos; sorrateira. Uma metáfora para o vazio existencial: a câmera nos leva ao nosso mais profundo abismo, ao baú de tormentos, e nos revela a dimensão da angústia escondida na curva dos olhares.

E tem ostentação, aparências, interstícios amorosos: estamos n’A Noite. Jeanne Moreau, Mastroianni e Monica Vitti. E então vem A Aventura , com rochas, mares e um novo despertar. Um universo de futilidades, incertezas e o reencontro da paixão – em Monica Vitti. Sim, iremos para onde ela quiser nos levar; sem máscaras, sem medo de amar.

Sunday, March 25, 2007

O cinema de Eric Rohmer



A câmera discreta, sem ousadias ou enquadramentos sensacionais, acompanha diálogos e mais diálogos, longas caminhadas pelas ruas e encontros casuais (será?) que embaralham destinos. Flagra olhares que mais escondem que revelam, e a aparente trivialidade da vida cotidiana na verdade serve para encobrir o que está atrás, o que só se revela nas entrelinhas, aquela fração de humanidade a que nem sempre nós mesmos temos consciência de possuir.

Parece ser isso o que os filmes de Eric Rohmer repetidamente se põem a dizer. Pelo menos é assim que os recebo: sinto como se Rohmer quisesse mostrar para esconder, falar para não dizer. É isso o que me intriga e por isso mesmo me encanta no universo rohmeriano.

Essas questões todas me vêm martelando a cabeça neste início de ano, que está delicioso para quem gosta ou desejar conhecer o cinema de Rohmer. Tudo começou com uma retrospectiva organizada pela Cinemateca Brasileira, entre fevereiro e março, em que foram exibidos vários longas-metragens. Agora, a sobremesa é servida com a chegada às locadoras, em meados de março, dos quatros DVDs que compõem a série Contos das Quatro Estações.

Conto de Inverno
Lançamento muito bem-vindo por parte do Grupo Estação – também detentor do direito no Brasil de uma série longas-metragens de Rohmer –, porque serve para minimizar a escassez de filmes do cineasta francês por aqui. Feitos os elogios, no entanto, alguns resmungos: não há extras nos DVDs e a quantidade filmes de Rohmer no mercado brasileiro ainda é ínfima, perto do total de obras dirigidas pelo cineasta.


Mas voltemos ao que interessa.

Depois de me embebedar com tanto Rohmer, alguns traços de sua carpintaria cinematográfica me ficam mais claros. O que primeiro salta aos olhos é, como já citei, a quantidade de diálogos. Os personagens passam o filme inteiro conversando. Mas não só isso: conversam, mas quase invariavelmente o fazem enquanto se locomovem. Se não estão caminhando a pé pelas ruas de Paris ou de outras cidades francesas, os personagens – geralmente jovens e de classe média – tagarelam em carros que estão em movimento. Caso estejam sentados à mesa de um bar (e há muitos diálogos em bares ou cafés), no fundo costuma haver uma vidraça através da qual se vê a cidade, com seus transeuntes e carros em trânsito. Ainda não consegui entender muito bem qual o significado disso. Mas trata-se de um elemento importante para a composição da mise-en-scène, a ponto de me levar a dizer que o movimento é praticamente um personagem em Rohmer

Selecionei um trecho que ilustra bem esses traços. Está presente em o Conto de Verão (de 1996), que apresenta a história de um adolescente hesitante (Gaspard) que vai passar férias numa região litorânea e, enquanto aguarda a chegada da namorada, começa a se relacionar com outras duas garotas (esse aspecto psicológico também dá pano para manga, mas deixo isso para outro dia). Repare:




Outra característica marcante no filmes de Rohmer são os encontros fortuitos. Isso ocorre, por exemplo, em O Amigo da minha amiga, A mulher do Aviador ou – já que estamos falando d’Os Contos – em o Conto da Primavera e no já citado Conto de Verão.

No primeiro caso, que faz parte da série Comédias e Provérbios, uma jovem por acaso faz amizade com uma outra jovem, que por sua vez tem um namorado que é amigo de um galã que desperta a atenção das mulheres. Já em A mulher do Aviador, também da mesma série, um mal entendido provocado pela visão de um encontro é o ponto de partida para uma história de ciúmes, insegurança e incertezas relativas ao amor. Em Conto da Primavera, uma madura professora de filosofia, Jeanne, vai a uma festa e lá se torna amiga de Natasha, uma garota cujo pai namora uma mulher muito mais jovem que ele.

A Mulher do Aviador

Em comum, esses filmes têm o fato de contarem histórias extremamente simples. Mas, como diz o crítico Inácio Araújo, as histórias de Rohmer “são tão banais, mas tão banais, que nos perguntamos qual a vantagem de contá-las e, sobretudo, de ficar lá, vendo aquilo”.



A resposta, segundo o crítico, é o “benefício da dúvida”. Sim, também concordo. Rohmer capta a vida de forma sutil, e assim nos transforma em cúmplices do prazer e da dúvida.

Monday, February 26, 2007

Até que enfim


Tudo bem: Oscar é festa da indústria, é de uma breguice de dar dó, com sorrisos postiços e aquele festival de afetações. Mas esta aí, é fato. E serve como um retrato de parte importante da produção mundial.



Feitos meus resmungos, digo que torcia pela remotíssima vitória de Pequena Miss Sunshine, mas fiquei feliz pela vitória de Os Infiltrados, de Martin Scorsese. Merecido: pungente, o filme se faz no fio da navalha, abordando o limite entre a lealdade (mas que de que lealdade estamos falando e a quem?) e a tentativa de salvar o próprio pescoço; num ritmo alucinante e envolvente, Scorsese deixa o espectador sem fôlego, pronto para o abate.



Embora um bom filme, no entanto, não colocaria Os Infiltrados no mesmo nível de Taxi Driver, Touro Indomável ou Os Bons Companheiros, que não ganharam Oscar de melhor filme. Em todo caso, foi com essa obra que a Academia se rendeu a Scorsese. Já estava mais do que na hora.

Sunday, February 25, 2007

Será que vai dar?

Estou na maior torcida para que essa família maluca leve o Oscar.

Saturday, February 24, 2007

A Fraternidade é Vermelha


O Telecine Cult exibiu dias atrás A Fraternidade é Vermelha. O filme faz parte da “Trilogia das Cores” ao lado de A igualdade é branca e A liberdade é azul, todos de Krzysztof Kieślowski , cineasta polonês falecido em 1996 que deixou seu nome gravado na lista dos grandes na história do cinema. Foi bom rever esse belo e marcante longa-metragem, que nos toca tanto pela suavidade com que mergulha no complexo – e misterioso – abismo das relações humanas como pela força poética que sustenta sua fotografia –prazer dos olhos, para fazer uso de uma expressão de Truffaut.

Krzysztof Kieślowski
Se for verdade que a sutileza e o bom gosto dão o tom de “A Fraternidade”, também o é a certeza de que o filme nos arremessa no colo uma bomba de efeito moral, destinada a nos questionar a respeito de nossa incompreensão mútua, a indiferença com que nos tratamos, o não reconhecimento do Outro; a incomunicabilidade das relações no estágio mais agudo.

Não por acaso, Kieślowski permeia o filme com símbolos que remetem à comunicação – ou à falta de. A metáfora se apresenta logo nos primeiros minutos de película, quando o telefone da protagonista Valentine (Irene Jacob) toca insistentemente: quem chama é seu namorado, que invariavelmente extravasa, sempre pelo telefone, suas neuras, crises de ciúme, seu medo de “perder” Valentine. E não pára por aí: a simbologia atinge o ponto máximo com o personagem do juiz aposentado cujo deleite secreto é grampear as conversas telefônicas dos vizinhos.

A Fraternidade é Vermelha é a confirmação do cinema não só como arte, mas como filosofia de vida.


E Deus criou Irene Jacob

Agora deixando de lado as questões técnicas ou qualquer devaneio crítico, a verdade é que o maior encanto em A Fraternidade, pelo menos para mim, é a talentosa Irene Jacob. É difícil explicar por que a figura dela me comove tanto. Talvez pelo fato de me intrigar e eu não saber explicar de onde vem seu segredo. Talvez por ser dotada de uma beleza que contrasta com a opulência vulgar do padrão enaltecido pelo senso comum e reverberado pela mídia (as turbinadas, siliconadas, popozudas de academia). Irene é sedutora sem ser fatal, graciosa sem ser afetada. Embora lindíssima, não soa inatingível: ela poderia morar do outro lado da rua.



Embora com estilo próprio e sem ter alcançado o mesmo glamour que as grandes divas do cinema francês, Irene Jacob é descendente de uma escola de atrizes composta por Jeanne Moreau, Catherine Deneuve, Brigitte Bardot, Anna Karina, Fanny Ardant e Julliete Binoche, que também participou da "Trilogia das Cores", como protagonista de A Liberdade é Azul.

Depois de falar tanto em Irene, chegou a hora de vê-la. Selecionei uma cena muito bonita de A Fraternidade. Neste trecho do filme, enquanto desfila ela procura pelo juiz, a essa altura já seu amigo. De resto, a cena é mais um exemplo da mestria de Kieślowski. Ele proporciona ao espectador densidade e emoção em uma cena que se passa em um desfile de moda, ambiente que se caracteriza pela superficialidade, especialmente no que se refere ao contato humano.

Thursday, February 01, 2007

Cinemateca exibe hoje Passion, de Godard

O destaque desta quinta-feira da Retrospectiva Godard, na Cinemateca Brasileira, é Passion, filme de 1982 que tem no elenco a atriz Isabelle Hupert. A sessão está programada para às 21h.
Veja o que o crítico Inácio Araújo escreveu sobre Passion.


O outro filme do dia é Número Dois (Numéro deux), às 17h20. Este será apresentado na versão original, sem legendas.


Clique aqui para ver o endereço da Cinemateca e a programação completa da programação, que se estende até 11 de fevereiro.

****
Mais sobre Godard em Ponto de Fuga

Friday, January 19, 2007

Anna Karina, musa para sempre

Devaneios poéticos pós-sessão, na Retrospectiva de Godard na Cinemateca Brasileira, de Uma mulher é uma mulher, com Anna Karina, no auge do talento e da beleza.

Rock, jazz, strip girl com jeito menina. Liberação dos desejos – com graça, poesia. Jump-cuts, Eisenstein na balada pop. Revolução dos costumes, o mundo começa a mudar –e a ser mais colorido. Fragmentado. Pós-moderno.

E eis que Godard nos vem com Anna Karina – fascínio e sutiliza à flor da pele. Que musa é essa que nos moldou a cinefilia do desejo? Que inspirou um novo sentido para o feminino? Close: Uma mulher é uma mulher. Vamos viver a vida. Com Anna Karina.

Wednesday, January 17, 2007

Maratona Godard

Não é toda hora que aparece uma oportunidade de ouro para a cenefilia como esta que a Cinemateca Brasileira nos reserva: será apresentada, de hoje até o dia 11 de fevereiro, a Retrospectiva Jean-Luc Godard, na própria Cinemateca, em São Paulo. Para quem é fá desse que é um dos precursores da nouvelle vague francesa – ou deseja conhecer melhor a obra do diretor de Made in USA e Viver a Vida –, trata-se de uma chance imperdível, dada a escassez de filmes de Godard disponíveis no Brasil.

Não tenho certeza e posso perfeitamente estar enganado, mas talvez a última grande retrospectiva de Godard é a que foi realizada em 2002, no Cinesesc. Tive a oportunidade de ver na ocasião muitos dos filmes agora programados pela Cinemateca, como Pierrot, le fou, Passion, Desprezo, Detetive, Tempo de Guerra, Uma mulher é uma mulher e Alphaville, entre outros. O gosto por essa descoberta está vivo até hoje em mim.

Maratonas cinematográficas como essas são uma ótima ocasião para desfazer mitos e preconceitos contra Godard. O primeiro deles é de que é um cineasta chato. Essa imagem surge do fato de que Godard busca um cinema que exige a interação por parte do espectador, ou seja, a entrega do espectador é fundamental para que de fato haja um diálogo entre a obra e quem a assiste. Ele não entrega a refeição mastigada; não é passatempo fast-food. Godard usa a forma para reforçar o discurso.

Anna Karina, musa de Godard
Especialmente nos últimos tempos ele passou a produzir filmes que se aproximam da poesia ou de ensaios audiovisuais – Je vous salue Marie (1985), Nossa Música (2004) e Elogio ao Amor ( 2001) vão nessa linha. São filmes belos e importantes, mas que exigem muito do espectador. Daí a fama. Mas se o espectador estiver disposto a mergulhar nessas reflexões, o resultado é compensador.

Feita essa observação, é preciso dizer que a carreira de Godard é feita de fases, das quais a inicial é composta por filmes que não fazem jus à má fama atribuída por quem é prefere um tipo cinema que dialoga mais facilmente com as grandes platéias.
Como bem observou Alcino Leite Neto, jornalista da Folha, em artigo de 2003, com Godard “ocorria, pela primeira vez, a emergência do pop no cinema, com imensa liberdade de estilo, rompendo todas as amarras da tradição cinematográfica e artística”.

Acossado

Acossado, que abre a retrospectiva, serve de exemplo. Lançado em 1960 – no embalo da ótima aceitação conferida a Os Incompreendidos (François Truffaut) e Hiroshima, meu Amor (Alain Resnais), tidos como os filmes inaugurais da nouvelle vague –, Acossado é o primeiro longa de Godard, conhecido até então pelo trabalho como crítico para a Cahiers du Cinéma, a tradicional revista francesa de cinema.

Embalado por um certo tom satírico e irônico, Acossado remete aos filmes noir produzidos nos EUA, com Michel Poiccard (Jean-Paul Belmondo), um debochado ladrão parisiense que admira Humprey Bogar, como protagonista. Esse personagem remete, às avessas, aos gângsteres dos filmes americanos. No filme, ele mata um policial que o perseguia pelo fato de ter furtado um carro. Poiccard quer fugir para a Itália e levar junto Patrícia (Jean Seberg), uma bela jovem americana.

Acossado é considerado um dos filmes – se não “o” filme – que inaugura o cinema moderno. Isso se deve, entre outros tantos motivos, pelas inovações no modo de filmar – especialmente na montagem, com uso da técnica de faux raccord, que quebra a seqüência das imagens e torna a narrativa ágil e fragmentada. Também deve ser destacada a abordagem moderna de temas como libertação feminina, política, a Guerra Fria, existencialismo e as aspirações da inquieta juventude dos anos 60.
Outros filmes que vão na contramão do senso comum – e podem agradar não apenas aos já fãs de Godard – são os já citados Pierrot, le fou, Alphaville, O pequeno soldado e Detetive.
Vou voltar ao assunto nos próximos dias.

Os filmes exibidos hoje na retrospectiva:

15h30 Acossado
17h20 Uma mulher é uma mulher
19h10 Viver a vida
21h00 O pequeno soldado


Atenção para o serviço:
Sala Cinemateca
Largo Senador Raul Cardoso, 207 – Vila Mariana
próxima ao Metrô Vila Mariana
Outras informações: 5084-2177 (ramal 210) ou 5081-2954

Ingressos: R$ 8,00 (inteira) / R$ 4,00 (meia-entrada)

Atenção: Estudantes do Ensino Fundamental e Médio de Escolas Públicas têm direito à entrada gratuita mediante a apresentação da carteirinha.

Para ver a programação completa, clique aqui

Wednesday, January 10, 2007

As reflexões de Tarkovski


Como presente de aniversário, ganhei da Lucia Faria, minha amiga e sócia, um belo livro – que o Ivo, marido dela, já havia me recomendado em dezembro: “Esculpir o tempo” (Martins Fontes), de Andrei Tarkovski, cineasta russo (1932-1986). Comecei a lê-lo ontem e já estou encantado.

Na introdução, Tarkovski (O Espelho, Solaris, A infância de Ivan) explica que o livro nasceu da intenção de refletir sobre o seu fazer artístico, o modo como seu trabalho pode ser confrontado com a de outros cineastas e que fatores diferenciam o cinema das demais artes. Floresce em cada linha, além da erudição, um profundo respeito pelo ser humano e o entendimento de que o cinema como canal para expressar em profundidade o sentido da aventura humana.

As poucas páginas já percorridas foram suficientes para ler apontamentos valiosos, como estes listados abaixo:

“A criação artística, afinal, não está sujeita a leis absolutas e válidas para todas as épocas; uma vez que está ligada ao objetivo mais geral do conhecimento do mundo, ela tem um número infinito de facetas e de vínculos que ligam o homem a sua atividade vital; e, mesmo que seja interminável o caminho que leva ao conhecimento, nenhum dos passos que aproximam o homem de uma compreensão plena do significado da sua existência pode ser desprezado como pequeno demais”.

Outro trecho a destacar é aquele em que defende a importância de a obra artística, em vez de entregar as emoções prontas e mastigadas para o público, provocar o espectador, instigá-lo a refletir e a se abrir para um diálogo efetivo com a arte. Diz Tarkoviski:

“O método pelo qual o artista obriga o público a reconstruir o todo através das suas partes e a refletir, indo além daquilo que foi dito explicitamente, é o único capaz de colocar o público em igualdade de condições com o artista no processo de percepção do filme. E, na verdade, do ponto de vista do respeito mútuo, só esse tipo de reciprocidade é digno dos procedimentos artísticos”.

A leitura promete.

Saturday, December 16, 2006

A nova moral de Jules e Jim


Capa da revista francesa Cahiers du Cinéma, sobre Jules e Jim, com Jeanne Moreau em grande estilo.

Um dos grandes momentos da história do cinema, Jules e Jim, terceiro longa-metragem de François Truffaut, é o sentido amoroso levado ao limite. É a revelação do amor na linha tênue entre o efêmero e o perene – entre a liberdade e a posse, a euforia e a perda. Jules e Jim nos mostra que não se brinca com a vida e que erguer o amor a partir de uma nova moral tem um preço a pagar– por vezes, alto demais.

“É bonito redescobrir as leis humanas, mas é mais prático seguir as leis antigas. Nós brincamos com a vida. E perdemos”, afirma Jim, em trecho do filme, que conta os descaminhos do triângulo amoroso entre Jim, o amigo Jules e Catherine, interpretada por Jeanne Moreau.

Da esquerda para a direita, Jim (Henri Serre), Catherine (Jeanne Moreau) e Jules (Oskar Werner)

Disse Truffaut a respeito da obra: “Jules e Jim é um sonho: todos nós sofremos diante do aspecto provisório de nossos amores e esse filme nos leva justamente a sonhar com amores definitivos”.

A canção Le Tourbillon de la vie (O turbilhão da vida) ajuda a compreender esse intricado jogo de relações, como observou certa vez o próprio Truffaut. Segundo ele, a música “marca o tom para o filme e é a sua chave”. Em uma das cenas (veja o vídeo abaixo), Catherine canta a música, acompanhada por Albert, um de seus outros amantes, e assistida por Jules.Diz a letra: “Temos de nos conhecer uma vez, e depois uma segunda vez/ perdemos contato uma vez e depois outra vez/ voltamos a nos encontrar e trouxemos calor um ao outro/ depois nos separamos, cada um, sozinho, partindo de novo no turbilhão da vida”.

Friday, December 15, 2006

Visconti segundo Glauber

Estou lendo as críticas de cinema escritas por Glauber Rocha. Assim como nos longa-metragens, sua linguagem nos textos também costuma seguir o fluxo fragmentado, a inventidade formal, a fraseologia do tormento, a poética alucinada.

Um exemplo disso está em Forma e sentido do cinema, em que discorre sobre Visconti, um dos principais diretores do neo-realismo ao lado de Roberto Rosselini.
O texto está presente em O Século do Cinema, livro que reúne as críticas redigidas por Glauber.


Forma e sentido do cinema

Glauber Rocha

Onde começa o filme e onde termina a literatura? Onde caem a filosofia vaga e sem método, o teatro declamado, a poesia fácil e começa o filme, essa entidade misteriosa que críticos, filmólogos e teóricos invocam?

Que Filosofia é esta que dizem haver em Fellini e Bergman? Onde está a Filosofia com os séculos de existência que possui para aparecer tão fácil assim, especulando, impondo Éticas a partir de um mecanismo do século XX?

O filme absoluto, aquele que não mais investiga a expressão, que não mais experimenta, que não mais propõe um problema mas o resolve em sua origem e surge como Universo total?

Luchino Visconti concentra naquela outra “realidade” nascida da tela branca a transferência de seu espírito para a imagem. E de ponta a ponta existe a Imagem que eu Sou. Que você é. Que é o mundo, suas paisagens e circunstâncias.
Visconti superou o Corte. Superou o Cinema.

(...)

Alain Delon, em Rocco e seus irmãos,
de Visconti

Arista de requinte, VISCONTI É O PROUST DO CINEMA NO SENTIDO FORMAL DO GESTO QUE SE COMPLETA ATÉ UNHA COÇAR A POEIRA.

Visconti não despreza a Palavra nem o Teatro. O Drama está no palco que Visconti constrói para armar os alicerces de seu Universo. Não é aquela velha e tola história de exibir um filme falado sem som para se ver que o entendimento é perdido.

Visconti tem a palavra como Maior Som do Homem e o Palco como o Espaço ideal do Ser Dramatyko.

Monday, December 04, 2006

O céu de Suely



O Céu de Suely é o céu de todos nós, é o substantivo feminino à flor da pele. É estar, simplesmente. É a busca de um sentido que não se qual é – é a espera de um norte, de um sul, de um poente para descansar. O Céu de Suely é nosso vazio suplicante; é a discrição de um sonho recolhido na dor, um blues em nosso Mississipi. A nostalgia do futuro, o sebastianismo que nos consome. O Céu de Suely é a urgência de viver, é o nosso abandono irrecuperável.

Tuesday, November 28, 2006

Precisamos de Glauber Rocha

Veja o curta-metragem Di, do diretor de Terra em Transe


Estopim de mil e uma polêmicas, provocador, verborrágico e visceral, Glauber Rocha nos faz uma tremenda falta. Talvez ele tivesse muitas dificuldades para viver em um mundo globalizado pelo capital e totalmente intermediado pelos “mercados”, cercado pelo politicamente correto e anestesiado por doses cavalares de apatia. Mas, pensando bem, talvez ele tirasse de letra. Mandaria tudo para aquele lugar, bradaria “EU SOU O CINEMA NOVO!” e filmaria “poesias audiovisuais”, alucinadas e febris, como o curta-metragem Di (esse é o nome como a película ficou conhecida, mas o título original é Ninguém Assistirá Ao Enterro Da Tua Última Quimera, Somente A Ingratidão, Aquela Pantera, Foi Sua Companheira Inseparável!, - Di Cavalcanti di Glauber).

Com pouco mais de 15 minutos de duração, o curta foi rodado em 1976, durante o funeral do pintor Emiliano Di Cavalcanti, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Ele foi exibido em algumas sessões no próprio MAM, na TV Educativa e no Festival de Cannes, onde, por indicação de Roberto Rosselini, foi premiado em 1977.


Glauber, como ele próprio disse, decidiu fazer o filme para atender a um pedido feito a ele por Di algum tempo antes. Certo dia o pintor pediu que Glauber o filmasse. Mas na ocasião o diretor não pôde. Quando Di morreu, Glauber não pensou duas vezes: foi ao enterro e realizou a vontade do amigo.

E o fez ao melhor estilo glauberiano: aos berros, o diretor dava instruções para o cinegrafista, pedia a quem tocasse o morto para olhar para a câmera e, com o caixão já fechado, o cortejo andando, gritou: “Pára o caixão. Pára que eu quero a câmera do outro lado” (leia mais). Di foi um transe carnavalesco, nas palavras do crítico Luiz Carlos Merten, em Cinema – Entre a realidade e o artifício (Artes e Ofícios Editora).

Quem não gostou nada da idéia foi Elizabeth Cavalcanti, que considerou as filmagens no enterro um desrespeito e conseguiu na Justiça, em 1981, a proibição da exibição do curta. Mas agora o filme está disponível na rede.


Sobre a pendenga judicial, há quem sustente que a proibição é ilegal. É o caso de José Mauro Gnaspini, advogado que defendeu dissertação de mestrado na Escola de Comunicação e Artes em 2003. Aprovado, com menção de louvor, o trabalho apóia-se sobre o conceito de que a obra audiovisual é protegida pelo direito de autor. Por isso o processo que culminou na proibição do curta deveria ter contato com a participação de Glauber, o que não ocorreu, pois a ação foi assumida pela Embrafilme. Assim, a sentença seria nula ou inexistente.

Polêmicas à parte, Di tem garantido seu lugar na cinematografia brasileira e merece ser visto.

Wednesday, November 08, 2006

Como Truffaut, somos todos incompreendidos

Quando estão terminados, apercebo-me que os meus filmes meus filmes são sempre mais tristes do que eu pretendia (François Truffaut)


*Jean-Pierre Léaud (em destaque), o Antonie Doinel de Os Incompreendidos, o primeiro longa-metragem de François Truffaut

Desamparado, sozinho no mundo, lá vai Antoine Doinel para o cinema, seu refúgio. Ver cinejornal. Sua fuga e sua liberdade. Lá vai Antoine cabular aula com o René, o único amigo que tem na vida. Lá vai Truffaut, e nós com ele, com a certeza de que o mundo em, Os Incompreendidos, tem um pedaço de todos nós.

*O trailler do filme


*Agora, uma das passagens mais
lindas de Os Incompreendidos: a cena flagra o encanto das crianças com o teatro de marionetes. Magia pura.

O homem da Variant

Já imaginou morar num carro? E se a "residência" for uma Variant 68?
Pois veja o curta-metragem abaixo e conheça a história de Sagu, um catador de recicláveis que mora no coração da Vila Olímpia - em uma Variant 68.


Dirigido por Fábio Barbará, o filme Variant foi editado por Tiago Cururu. A produtora atende pelo sugestivo nome de Saideira filmes.