Sunday, March 25, 2007

O cinema de Eric Rohmer



A câmera discreta, sem ousadias ou enquadramentos sensacionais, acompanha diálogos e mais diálogos, longas caminhadas pelas ruas e encontros casuais (será?) que embaralham destinos. Flagra olhares que mais escondem que revelam, e a aparente trivialidade da vida cotidiana na verdade serve para encobrir o que está atrás, o que só se revela nas entrelinhas, aquela fração de humanidade a que nem sempre nós mesmos temos consciência de possuir.

Parece ser isso o que os filmes de Eric Rohmer repetidamente se põem a dizer. Pelo menos é assim que os recebo: sinto como se Rohmer quisesse mostrar para esconder, falar para não dizer. É isso o que me intriga e por isso mesmo me encanta no universo rohmeriano.

Essas questões todas me vêm martelando a cabeça neste início de ano, que está delicioso para quem gosta ou desejar conhecer o cinema de Rohmer. Tudo começou com uma retrospectiva organizada pela Cinemateca Brasileira, entre fevereiro e março, em que foram exibidos vários longas-metragens. Agora, a sobremesa é servida com a chegada às locadoras, em meados de março, dos quatros DVDs que compõem a série Contos das Quatro Estações.

Conto de Inverno
Lançamento muito bem-vindo por parte do Grupo Estação – também detentor do direito no Brasil de uma série longas-metragens de Rohmer –, porque serve para minimizar a escassez de filmes do cineasta francês por aqui. Feitos os elogios, no entanto, alguns resmungos: não há extras nos DVDs e a quantidade filmes de Rohmer no mercado brasileiro ainda é ínfima, perto do total de obras dirigidas pelo cineasta.


Mas voltemos ao que interessa.

Depois de me embebedar com tanto Rohmer, alguns traços de sua carpintaria cinematográfica me ficam mais claros. O que primeiro salta aos olhos é, como já citei, a quantidade de diálogos. Os personagens passam o filme inteiro conversando. Mas não só isso: conversam, mas quase invariavelmente o fazem enquanto se locomovem. Se não estão caminhando a pé pelas ruas de Paris ou de outras cidades francesas, os personagens – geralmente jovens e de classe média – tagarelam em carros que estão em movimento. Caso estejam sentados à mesa de um bar (e há muitos diálogos em bares ou cafés), no fundo costuma haver uma vidraça através da qual se vê a cidade, com seus transeuntes e carros em trânsito. Ainda não consegui entender muito bem qual o significado disso. Mas trata-se de um elemento importante para a composição da mise-en-scène, a ponto de me levar a dizer que o movimento é praticamente um personagem em Rohmer

Selecionei um trecho que ilustra bem esses traços. Está presente em o Conto de Verão (de 1996), que apresenta a história de um adolescente hesitante (Gaspard) que vai passar férias numa região litorânea e, enquanto aguarda a chegada da namorada, começa a se relacionar com outras duas garotas (esse aspecto psicológico também dá pano para manga, mas deixo isso para outro dia). Repare:




Outra característica marcante no filmes de Rohmer são os encontros fortuitos. Isso ocorre, por exemplo, em O Amigo da minha amiga, A mulher do Aviador ou – já que estamos falando d’Os Contos – em o Conto da Primavera e no já citado Conto de Verão.

No primeiro caso, que faz parte da série Comédias e Provérbios, uma jovem por acaso faz amizade com uma outra jovem, que por sua vez tem um namorado que é amigo de um galã que desperta a atenção das mulheres. Já em A mulher do Aviador, também da mesma série, um mal entendido provocado pela visão de um encontro é o ponto de partida para uma história de ciúmes, insegurança e incertezas relativas ao amor. Em Conto da Primavera, uma madura professora de filosofia, Jeanne, vai a uma festa e lá se torna amiga de Natasha, uma garota cujo pai namora uma mulher muito mais jovem que ele.

A Mulher do Aviador

Em comum, esses filmes têm o fato de contarem histórias extremamente simples. Mas, como diz o crítico Inácio Araújo, as histórias de Rohmer “são tão banais, mas tão banais, que nos perguntamos qual a vantagem de contá-las e, sobretudo, de ficar lá, vendo aquilo”.



A resposta, segundo o crítico, é o “benefício da dúvida”. Sim, também concordo. Rohmer capta a vida de forma sutil, e assim nos transforma em cúmplices do prazer e da dúvida.

3 comments:

Anderson Vitorino said...

Beleza? Muito legal seu blog! Também adoro Rohmer. Abraço!

Clayton Melo said...

Oi, Anderson! Obrigado pela visita e por ter achado o blog legal. Pois é, sou fá de Rohmer. E na nouvelle vague de uma maneira geral. Apareça mais vezes.
Abraço.

Rai said...

Homi,
aqui em joão Pessoa, na Paraíba, onde moro, eu comprei a 5,00 reais dois filmes do Rohmer...O conto de Inverno e o Conto de Primavera. Assistimos eu e um amigo, e vez em quando eu olhava pra mim, eu pra ele com um cara de desepero. Não somos lá grandes conhecedores de cinema, mas temos procurado ver "coisas" e narrativas que desautomatizem o "olhar" de ver cinema, por exemplo. O desepero do olhar da gente era, penso, um incômodo, do incompreensível. Não gostei de nem um dos dois filmes. Não posso julgar a obra do cara por dois filmes vistos, mas eles "pareceram" suficientes pra eu não querer ver mais nenhum. Daí pesquisando na net, achei teu Blog...pelo menos teu texto me situo e me deixou menos inquieto.